Pensando na letra da música Décimas Lunares - Seu Pereira e Coletivo 401

Salve galera!

Em perguntas muito abertas podemos ser surpreendidos. Nunca tinha ouvido falar nem na banda e nem na música. Gostei da musicalidade e do sotaque, mas vamos ao que interessa. Bora pensar nessa letra?



Em negrito, a letra da música. Em letra sem diferencial, são minhas colocações. 

Décimas Lunares
Seu Pereira e Coletivo 401

Nem velho, nem jovem, nem santo, nem puto
Meu preto é do luto das dores que chovem
As nuvens se movem nas minhas retinas
Lunares meninas me bebem, me fumam
Em fases assumam meu peito em ruínas

"Nem velho, nem jovem, nem santo, nem puto" - O eu lírico se mostra como alguém fora das categorias comuns, recusando rótulos. Apresentando certa fluidez na vida, que não se encaixa em extremos ou estereótipos. 
"Meu preto é do luto das dores que chovem" - O “preto” aqui me faz pensar tanto a cor da pele quanto a cor do luto. A associação com “dores que chovem” sugere tristeza constante, como choro, se derramando, se esvaindo.
"As nuvens se movem nas minhas retinas" - Aqui ele se utiliza de uma linguagem poética. As nuvens parecem representar instabilidade, mudança, talvez confusão emocional. O eu lírico carrega dentro de si o peso do céu nublado. Faz-me pensar em algo turvo, talvez como uma angústia. 
"Lunares meninas me bebem, me fumam" - “Lunares” remete à lua, ciclos, feminilidade, mistério.
As meninas aparecem como figuras que consomem o eu lírico (“me bebem, me fumam”), sugerindo desejo, sedução. Pode ser visto também como uma relação intensa.
"Em fases assumam meu peito em ruínas" - A referência às fases da lua reforça a ideia de ciclos e transformações. O peito em ruínas mostra vulnerabilidade, dor, fragilidade. O pedido “assumam” sugere entrega: que essas forças externas ou femininas acolham sua destruição. É como se ele se entregasse para as meninas lugares. 

 A letra constrói uma identidade marcada pela recusa de rótulos, atravessada por dor e luto, mas também permeada por imagens de desejo e transformação. É um eu lírico que se vê em constante movimento, instável, consumido e ao mesmo tempo entregue às forças que o cercam.

Planaltos, campinas entre outros lugares
Pousadas e bares, estradas, esquinas
Minguantes meninas me sangram, me comem
Feito lobisomem, minha alma destrincha
Solidão de bicho, coração de homem

"Planaltos, campinas entre outros lugares"-  O eu lírico evoca paisagens amplas e variadas, como se estivesse em trânsito ou em busca de pertencimento a algum lugar. O contraste entre planaltos e campinas sugere diversidade de cenários, talvez significando as diferentes fases da vida.
"Pousadas e bares, estradas, esquinas" - Aqui o foco sai da natureza e vai para espaços mais urbanos, cotidianos. Pousadas e bares remetem a diversão e sociabilidade; estradas e esquinas evocam movimento, encontros e desencontros. Continua com a ideia de deslocamento, tanto físico quanto possivelmente existencial.
"Minguantes meninas me sangram, me comem" - “Minguantes” conecta novamente à lua, mas agora em fase de declínio, a luz vai acabando. As meninas aparecem como forças que sugam energia, que ferem (“me sangram”) e consomem (“me comem”). Uma relação aparentemente bem disfuncional, até toxica. 
A imagem é intensa, de desgaste emocional ou corporal.
"Feito lobisomem, minha alma destrincha" - O lobisomem passa por uma transformação dolorosa, animalidade, descontrole. Achei poético/dramático esse trecho que fala: A alma “destrincha”,  sugere que o eu lírico se sente dilacerado, dividido entre humano e bicho. Parece estar passando por uma luta interna, uma identidade fragmentada, entre o racional e o animalesco. 
"Solidão de bicho, coração de homem" - A solidão é comparada à de um animal, instintiva, bruta. Mas o coração ainda é humano, capaz de sentir, amar, sofrer. O verso traz mais uma dualidade: entre instinto e humanidade, isolamento e sensibilidade.

Essa parte da letra fala da errância (estradas, lugares), de uma relação desgastante (meninas minguantes) e de uma dualidade existencial (lobisomem, bicho vs. homem). É um eu lírico que se percebe em constante transformação, dilacerado entre mundos e naturezas.

Raposas carcomem nas ruas as sobras
Corujas e cobras na escuridão somem
Que em meu abdômen medos se acomodem
E os desejos rodem feito bailarinas
Flutuantes meninas me findam, me fodem

"Raposas carcomem nas ruas as sobras" - Faz pensar em sobrevivência e marginalidade: raposas, animais astutos, alimentam-se do que resta. Sugere um ambiente urbano duro, onde só sobram restos, e quem vive nele precisa se adaptar. Uma existência miserável. 
"Corujas e cobras na escuridão somem" - Corujas e cobras são símbolos de sabedoria e perigo, mas aqui desaparecem na escuridão, é algo curioso, principalmente se pensar que no escuro os olhos da coruja costumam se destacar. Pode indicar mistério, escondimento, forças que agem silenciosamente. O eu lírico está cercado por presenças noturnas, ambíguas. Há uma tensão no ar. 
"Que em meu abdômen medos se acomodem" - O corpo é o espaço onde os medos se instalam. O abdômen, centro vital, torna-se depósito de angústias. Muitas pessoas, diante da tensão do inesperado, apresenta sintomas que envolvem a região abdominal (enjôo, "borboletas no estômago, dor de barriga)
É uma sensação visceral: o medo não é abstrato, é físico.
"E os desejos rodem feito bailarinas" - Mais um contraponto na música. Diante dos medos paralisantes, temos desejos que são dinâmicos, giram, dançam. A imagem das bailarinas traz leveza, movimento, estética. Há uma tensão entre medo paralisante e desejo vibrante.
"Flutuantes meninas me findam, me fodem" - As meninas voltam agora “flutuantes”, etéreas, quase fantasmagóricas.  É um misto de prazer e destruição, desejo e fim, que intensifica a ambiguidade da relação. 

Essa parte da letra traz um cenário noturno e urbano, povoado por animais simbólicos, e coloca o corpo do eu lírico como palco de medos e desejos. As meninas aparecem novamente como forças irresistíveis, ao mesmo tempo sedutoras e destrutivas, reforçando o tema da dualidade entre prazer e dor, vida e ruína.




Apesar de uma musicalidade interessante e o sotaque do cantor ser gosto de ouvir, não é uma letra que me agrada muito, tem um tom de agressividade, de uma intensidade negativa. Gosto também do uso da dualidade. Enfim, foi interessante analisar essa música. 

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