Pensando na letra da música A vida é desafio - Racionais Mc's

Como eu gosto de um desafio, resolvi sair da minha zona de conforto e analisar algumas músicas dos Racionais Mc's. Não é muito o estilo de música que escuto, mas acredito que o conteúdo pode ser interessante e trazer boas reflexões. Vou pensar em um viés da logoterapia e do que a letra me transmite. A Logoterapia é centrada na ideia de que a principal força motivadora do ser humano é a busca pelo sentido da vida (vontade de sentido), mesmo nas condições mais extremas de sofrimento, privação e vulnerabilidade social. Escolhi a música mais procurada segundo o site Vagalume, A vida é desafio. Vamos nessa?


Em negrito segue a letra. O que não estiver em negrito é apontamento meu. 

É necessário sempre acreditar que o sonho é possível
Que o céu é o limite e você, truta, é imbatível
Que o tempo ruim vai passar, é só uma fase
E o sofrimento alimenta mais a sua coragem
Que a sua família precisa de você
Lado a lado se ganhar pra te apoiar se perder
Falo do amor entre homem, filho e mulher
A única verdade universal que mantém a fé
Olhe as crianças que é o futuro e a esperança
Que ainda não conhece, não sente o que é ódio e ganância
Eu vejo o rico que teme perder a fortuna
Enquanto o mano desempregado, viciado, se afunda
Falo do enfermo irmão, falo do são então,
Falo da rua que pra esse louco mundão
Que o caminho da cura pode ser a doença
Que o caminho do perdão às vezes é a sentença
Desavença, treta e falsa união
A ambição é como um véu que cega os irmãos
Que nem um carro guiado na estrada da vida
Sem farol no deserto das trevas perdidas
Eu fui orgia, ébrio, louco, mas hoje ando sóbrio
Guardo o revolver enquanto você me fala em ódio
Eu vejo o corpo, a mente, a alma, o espírito
Ouço o refém e o que diz lá no canto lírico
Falo do cérebro e do coração
Vejo egoísmo, preconceito de irmão para irmão
A vida não é o problema, é batalha, desafio
Cada obstáculo é uma lição, eu anuncio

Frankl defendia que o sofrimento humano se torna insuportável quando perde o sentido. Quando o indivíduo não encontra um propósito, cai no vazio existencial, que frequentemente se manifesta através do crime, do vício e da violência.
No trecho "O sofrimento alimenta mais a sua coragem / Que a sua família precisa de você", entendo que a letra mostra que a dor não precisa levar à autodestruição. Encontrar um motivo para resistir — seja a família, a responsabilidade com os filhos ou a realização de um sonho — dá significado ao sofrimento. Como Frankl citava Nietzsche: "Quem tem um porquê viver, suporta quase qualquer como".
Para a Logoterapia, o homem é composto por três dimensões: a biológica (corpo), a psicológica (mente) e a noológica (espírito). É na dimensão espiritual que residem os valores, a consciência, a liberdade de escolha e a capacidade de amar.
Os compositores expressam exatamente essa visão tridimensional e integrada da condição humana no trecho "Eu vejo o corpo, a mente, a alma, o espírito / Ouço o refém e o que diz lá no canto lírico / Falo do cérebro e do coração". A capacidade de transcender a realidade violenta e o desespero vem da força do espírito humano, não apenas das circunstâncias físicas do ambiente.
A Logoterapia enfatiza que não somos vítimas passivas do nosso passado ou do ambiente, mas agentes ativos do nosso presente. Consigo identificar isso claramente quando escuto "O amanhã é ilusório (...) O hoje é real / É a realidade que você pode interferir / As oportunidades de mudança tá no presente". A letra traz uma lição clássica da Logoterapia, a da responsabilidade existencial. Frankl afirma que o sentido da vida é algo a ser descoberto momento a momento no agora. O indivíduo precisa assumir a responsabilidade por suas escolhas atuais em vez de esperar passivamente pelo futuro ou se vitimizar.
Frankl aponta que podemos realizar sentido na vida de três formas: criando algo (trabalho/arte), vivenciando algo ou amando alguém, e adotando uma atitude positiva diante do sofrimento inevitável.
Na parte: "A vida não é o problema, é batalha, desafio / Cada obstáculo é uma lição, eu anuncio" eu identifico que mudar a perspectiva sobre o obstáculo é o pilar da ressignificação existencial. O sofrimento deixa de ser um fardo inútil e passa a ser encarado como uma oportunidade de aprendizado e amadurecimento moral.
Na perspectiva logoterapêutica, o amor e os ideais são capacidades de autotranscendência (a habilidade humana de se voltar para algo ou alguém fora de si mesmo). Quando a música diz: "Falo do amor entre homem, filho e mulher / A única verdade universal que mantém a fé (...) Acreditar que sonhar sempre é preciso / É o que mantém os irmãos vivos", podemos inferir que o "sonho" e o "amor" funcionam como o farol existencial que impede o indivíduo de ceder ao niilismo ou à banalidade da violência urbana.
Se pudesse resumir um pouco do que esse trecho me transmitiu é uma afirmação da liberdade última do ser humano, a postura que você escolhe tomar diante do caos. Assim como Frankl sustentava que ninguém pode tirar a liberdade interior de um homem (mesmo dentro de um campo de concentração), a música reforça que, mesmo nas realidade mais dificeis como a extrema vulnerabilidade social, em meio à violência ou da cela, a capacidade de sonhar, amar e agir com retidão continua sendo a maior força de transformação e preservação da dignidade humana. 

É isso aí você não pode parar
Esperar o tempo ruim vir te abraçar
Acreditar que sonhar sempre é preciso
É o que mantém os irmãos vivos


Nesse parágrafo farei uma análise mais comum, sem relacionar taaantocom a Logoterapia, embora tenha um pouco dela.
"Não parar / Não esperar o tempo ruim" - Faz pensar sobre a necessidade de manter o movimento e a ação, evitando a paralisia diante das adversidades e do sofrimento.
"Sonhar sempre é preciso": - Traz a ideia de que o sonho não é mera ilusão, mas um combustível essencial para resistir e continuar existindo.
O que mantém os irmãos vivos. O sonho e a esperança aparecem como forças coletivas de sobrevivência nas periferias e em ambientes hostis. Mostra a importância de não caminharmos sozinhos. 

Várias famílias, vários barracos
uma mina grávida
E o mano tá lá trancafiado
Ele sonha na direta com a liberdade
Ele sonha em um dia voltar pra rua longe da maldade
Na cidade grande é assim
Você espera tempo bom e o que vem é só tempo ruim
No esporte no boxe ou no futebol
Alguém sonhando com uma medalha o seu lugar ao sol
Porém fazer o quê se o maluco não estudou
500 anos de Brasil e o Brasil aqui nada mudou
"Desespero ali, cena do louco,
invadiu o mercado farinhado, armado e mais um pouco"
Isso é reflexo da nossa atualidade
Esse é o espelho derradeiro da realidade
Não é areia, conversa, chaveco
Porque o sonho de vários na quebrada é abrir um boteco
Ser empresário não dá, estudar nem pensar
Tem que trampar ou ripar para os irmãos sustentar
Ser criminoso aqui é bem mais prático
Rápido, sádico, ou simplesmente esquema tático
Será instinto ou consciência
Viver entre o sonho e a merda da sobrevivência


Aqui a realidade dura e cruel parece atropelar os sonhos, triste realidade de um país com tantas agruras sociais. 
Mostra a ilusão do tempo bom, com um contraste entre a esperança individual e a dureza estrutural ("Você espera tempo bom e o que vem é só tempo ruim").
Escancara a falta de alternativas, perante tanta desigualdade. O afunilamento de caminhos legítimos — falta de acesso ao estudo, à empreendedorismo ou ao esporte —, restando apenas o trabalho precarizado/informal ou o crime como via de subsistência imediata.
Há um dilema final, a provocação entre "instinto ou consciência" expõe o conflito moral de quem é empurrado para a criminalidade não por vocação, mas pela urgência da sobrevivência.
A Logoterapia defende que, embora o homem não escolha todas as suas circunstâncias, ele conserva a liberdade de escolher sua atitude diante delas. O trecho aborda o dilema "Será instinto ou consciência / Viver entre o sonho e a merda da sobrevivência", tensionando o limite onde a pressão social tenta reduzir a pessoa ao mero "instinto", enquanto a "consciência" busca afirmar a dignidade individual.
Quando as vias legítimas de realização (estudo, trabalho digno, esporte) são bloqueadas por barreiras estruturais ("500 anos de Brasil e o Brasil aqui nada mudou"), surge o que Frankl chama de vazio existencial. O recurso à violência ou ao crime ("Ser criminoso aqui é bem mais prático") aparece no texto como uma resposta trágica e sintomática a esse desespero desprovido de alternativas de sentido.
A Logoterapia estrutura a experiência do sofrimento humano em três pilares: dor, culpa e morte. O trecho retrata essa tríade concretamente: a dor das famílias nos barracos, a culpa e a privação do mano "trancafiado", e o risco diário da morte na busca pela sobrevivência.

"O aprendizado foi duro e mesmo diante desse
revés não parei de sonhar, fui persistente
porque o fraco não alcança a meta
Através do rap corri atrás do preju
e pude realizar o meu sonho
por isso que eu afro X nunca deixo de sonhar"

Para a Logoterapia, o sofrimento não é um fim em si mesmo, mas um espaço onde o indivíduo pode exercer sua atitude. Quando Afro X diz que "o aprendizado foi duro e mesmo diante desse revés não parei de sonhar", ele exemplifica a superação do sofrimento inevitável pela afirmação de um propósito.
Frankl aponta três vias para encontrar sentido na vida: o trabalho/criação, o amor/experiência e a atitude diante do sofrimento inevitável. No verso "Através do rap corri atrás do preju e pude realizar o meu sonho", o rap surge como a via criativa de realização que resgatou o sentido da existência após o revés.
A expressão "o fraco não alcança a meta" reflete a luta contra a paralisia do desespero. Na visão logoterapêutica, a "fraqueza" ou capitulação ocorre quando a pessoa perde o horizonte de futuro; manter o sonho vivo é o antídoto contra esse colapso psíquico.

Conheci o paraíso e eu conheço o inferno
Vi Jesus de calça bege e o diabo vestido de terno
No Mundo moderno, as pessoas não se falam
Ao contrário se calam, se pisam, se traem e se matam
Embaralho as cartas da inveja e da traição
Copa, ouro e uma espada na mão
O que é bom pra si e o que sobra é do outro
Que nem o sol que aquece, mas também apodrece o esgoto
É muito louco olhar as pessoas
A atitude do mal influencia a minoria boa
Morrer à toa e que mais, matar à toa e que mais
Ir preso à toa, sonhando com uma fita boa
A vida voa e o futuro pega
Quem se firmou, falo
Quem não ganhou, o jogo entrega
Mais uma queda em 15 milhões
Na mais rica metrópole, suas várias contradições
É incontável, inaceitável, implacável, inevitável
Ver o lado miserável se sujeitando com migalhas, favores
Se esquivando entre noite de medo e horrores
Qual é a fita, treta, cena
A gente reza, foge, e continua sempre os mesmos problemas
Mulher e dinheiro tá sempre envolvido
Vaidade, ambição munição pra criar inimigo
Desde o povo antigo foi sempre assim
Quem não se lembra que Abel foi morto por Caim
Enfim quero vencer sem pilantrar com ninguém
Quero dinheiro sem pisar na cabeça de alguém
O certo é certo na guerra ou na paz
Se for um sonho, não me acorde nunca mais
Roleta russa quanto custa engatilhar
Eu pago o dobro pra você em mim acreditar

Ao dizer "Vi Jesus de calça bege e o diabo vestido de terno", a letra dialoga com o alerta de Viktor Frankl sobre as aparências sociais. A dignidade e o sentido não estão no status ou na vestimenta exterior, mas na orientação moral interna da pessoa.
O trecho "No Mundo moderno, as pessoas não se falam / Ao contrário se calam, se pisam, se traem e se matam" descreve a massificação e o isolamento na metrópole. Para a Logoterapia, a falta de vínculos autênticos e a busca desenfreada por "mulher e dinheiro" (prazer e poder) são tentativas de preencher o vazio existencial. Ainda digo mais, em um mundo hiperconectado (e o Brasil, se não me engano está entre os países com maior tempo de uso das redes sociais), parece estamos cada vez mais solitários, em relações e vidas superficiais. O mundo nos vende a ilusão da felicidade por meio do ter, do poder e do prazer, mas de nada vale isso tudo se o nosso ser está vazio, sem sonhos, sem vida, sem sentido.
Nos versos "Quero vencer sem pilantrar com ninguém / Quero dinheiro sem pisar na cabeça de alguém / O certo é certo na guerra ou na paz", o rapper afirma sua liberdade de atitude. Mesmo sob a pressão esmagadora do ambiente, ele escolhe manter valores éticos, provando que o indivíduo não é totalmente determinado pelas circunstâncias exteriores.

"É isso aí, você não pode parar
Esperar o tempo ruim vir te abraçar
Acreditar que sonhar sempre é preciso
É o que mantém os irmãos vivos"

Já comentado acima. 

Geralmente quando os problemas aparecem
A gente tá desprevenido né não?
Errado
É você que perdeu o controle da situação
Perdeu a capacidade de controlar os desafios
Principalmente quando a gente foge das lições
Que a vida coloca na nossa frente ta ligado?
Você se acha sempre incapaz de resolver
Se acovarda moro
O pensamento é a força criadora
O amanhã é ilusório
Porque ainda não existe
O hoje é real
É a realidade que você pode interferir
As oportunidades de mudança
Tá no presente
Não espere o futuro mudar sua vida
Porque o futuro será a consequência do presente
Parasita hoje
Um coitado amanhã
Corrida hoje
Vitória amanhã
Nunca esqueça disso, irmão.

Quando o texto diz "Errado / É você que perdeu o controle da situação (...) Você se acha sempre incapaz de resolver / Se acovarda", ele confronta o que Frankl chama de "determinismo neurotizante". Para a Logoterapia, o ser humano não é mero fruto do ambiente; ele é responsável por suas escolhas. O desespero ou a acovardamento ocorrem quando o indivíduo abdica de sua capacidade de responder à vida.
A passagem "O amanhã é ilusório / Porque ainda não existe / O hoje é real / É a realidade que você pode interferir" reflete a noção logoterapêutica do tempo. O passado é imutável, o futuro é incerto, mas o presente é o único espaço onde a liberdade de escolha e a vontade de sentido podem ser exercidas concretamente.
Frankl defendia que a vida faz perguntas ao ser humano, e cabe a ele responder não com palavras, mas com ações. Esperar passivamente que o futuro mude a vida é uma ilusão; o sentido só se realiza na postura ativa diante da realidade ("corrida hoje").
Aqui faço uma pequena partilha. Trabalho com pessoas em situação de rua e vi a letra dessa música na vida de vários deles. Vejo muitos sem a perspectiva de boas oportunidades e sem a preparação necessária para alçar vôos mais altos. Muitos parecem paralisar na vida à espera de um direito que infelizmente não chega para todos, a moradia, seja ela temporária ou definitiva, sem planos de busca de mudança, sem muita esperança. Essa música traz um certo alento, um incentivo para ir além. Gostei bastante. 

Se eu de fato me aventurar nas músicas dos Racionais Mc's, você teria alguma sugestão de outras que quer que analise? Enxerga algo diferente do que falei nessa música? Comenta aqui e me ajuda a trazer mais postagens como essa. 

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